janeiro 20, 2017

O tempo, o pão, a vida ....

O tempo não existe
Por isso, ou apesar disso, é infinito
O tempo não existe
É o espaço entre duas ações
Não é tempo, é vazio.

A vida um pão
Finita, delimitada
No espaço entre ações
No tempo
No vazio.

O pão é cortado
O corte. Um vazio
Um tempo
O corte expõem
Mostra o pão por dentro.

O corte pode ser preenchido
Com recheios
Ações
Mais um corte
Mais ações.

Entre ações
O tempo
Não mais vazio
Mas o espaço entre duas ações
O pão, o espaço, as ações, o tempo.

Mais o pão se expõem
Mais cortes
Mais ações
Mais tempo
Mais pão?

O pão, o espaço, as ações, o tempo, a vida.

A vida. Um pão
A ser cortado
Preenchido
E o tempo?
Espaço entre as ações.

O tempo
Da vida
Com ações se faz.
Se corte, aja,
Viva!

março 25, 2015

What is the REAL role of a Compliance Officer?

This is a question I have posed to myself more than once and have also discussed with fellow professionals many times over, and while the technical answer to it is quite simple and can be easily found, it is the non-technical answer that interests me the most.
To leave the easy parts of the discussion behind the technical answer to the question is that the role of a Compliance Officer is to manage and run the Compliance Program of a company, period. And running the Compliance Program encompasses ensuring that all the necessary components, or pillars, of the program are properly designed, adequately resourced, are embedded into the routine operations, have proper oversight, have the support of top management and are understood by the whole company.
It is not the role of the Compliance Officer to be the one responsible for the compliance to all applicable laws and regulations – for that responsibility is shared with all other employees, nor to be the moral, or ethical, compass of the company. Compliance is not a cult that has a leader that is to be followed just for the sake of ‘complying’ with the expected behavior. At the end of the day, the Compliance Officer cannot, and will not, ensure that everybody follow the rules, for this is a personal decision of each and every single employee in the Company and no policy, no internal control, no system by itself will change.
Well, since I started this discussion clearly stating that I am interested in the non-technical answer let’s get to it. We all know that being a [good] Compliance Officer is not a task for those who only seek a breadwinning-nine-to-five job. Look around yourself and pick the examples of good compliance colleagues that you know, or met, and you will find a common trait to all those individuals: They usually are personally engaged to their profession and are nice people.
Being a good Compliance Officer takes more than ensuring a collection of clerical business processes (the Compliance Program) is running – this could be accomplished by anyone with basic business process methodology knowledge – it takes some level of personal commitment to doing the right thing all the time, it takes a high degree of empathy, it requires that one is free of prejudice towards others, it takes learning how to accept losing small battles in order to win the war, it takes knowing that evil will always be part of human nature, it is about planning and acting for the long-term changes and not about short-term check-the-box exercises, it also takes a great deal of collaboration with all other departments of a company (for the Compliance Officer can - and should - always find simpler and better ways of doing things). Lastly it does take a lot of building trust with all other persons, because the individuals in a company have to know that they can count on and trust the Compliance Officer when difficulties arise.
Long Story Short: I believe that being a good Compliance Officer is all about helping others finding the right tools, resources and advice in order for them to make the right choices and do the right thing (and ultimately succeed in their roles).

Does it take a lot of technical knowledge on the Compliance Officer’s side to do it well? Yes, it does.
Does it suffice to have technical knowledge? No, it doesn’t.
Do you have to be a lawyer, or an engineer, or any other specific type of professional? No, it doesn’t. As I usually say to my audience during a compliance officer formation course I co-teach: “It takes only having working brain cells to be a Compliance Officer, for it is mostly the exercise of good logic.”
To wrap it up: a good Compliance Officer is someone willing to help others!
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Original Post at Linkedin: https://www.linkedin.com/pulse/what-real-role-compliance-officer-alexandre-da-cunha-serpa-ccep-cfe
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The picture above is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License

fevereiro 09, 2015

Ah… esse governo corrupto e imoral!


Ah… esse governo corrupto e imoral! Que atravessa fora da faixa de pedestre.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que paga para ‘sumirem’ com seus pontos da CNH.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que dirige no acostamento.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que paga ao despachante para não fazer a vistoria do carro.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que dirige depois de beber.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que reclama do radar quando é multado por excesso de velocidade.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que joga papel na rua.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que atravessa o sinal fechado buzinando e acelerando.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que passa trote violento e abusa sexualmente dos calouros.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que chama homossexuais de viado, bichinha e sapata.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que diz que piadas estereotipadas são apenas brincadeiras mas ficam putos quando os Simpsons nos tornam piadas.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que diz que a mulher “pediu” quando é abusada.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que ‘aceita’ a homossexualidade mas que na rua dois homossexuais de mãos dadas é imoral.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que ‘aceita’ a mulher como igual mas reitera que “é difícil trabalhar com mulher”.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que xinga o porteiro do prédio quando este o obriga a cumprir a regra do condomínio (como abrir os vidros do carro para se identificar).
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que quer um país melhor mas somente paga o salário mínimo ao seu escravo doméstico.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que agride professores.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que dá carteirada nos policiais.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que não coloca limites em seus filhos.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que diz a seu filho homem para “parar de chorar como uma menininha”.
Ah… esse governo corrupto e imoral! Que governa esse povo tão honesto e correto!
O que será de nós, esse povo tão honesto e correto, com esse governo corrupto e imoral?
O quê?








Há algumas coisas que eu gosto de frisar quando faço esse tipo de crítica:
Sim. Eu sou parte desse povo tão honesto e correto. Sim. Eu já fiz coisas erradas.
Mas eu mudo. E todos podemos mudar. Basta Querer.
E não é por termos errado no passado que ficamos automaticamente proibidos de criticar o mesmo erro que cometemos.
Sim. O povo brasileiro, em seu representante “médio”, de todas as raças, credos, níveis educacionais e classes sociais é um povo preguiçoso, um povo que gosta de se achar “especial” (especialmente enquanto indivíduo “uno”), um povo que não se responsabiliza por nada (tudo é culpa dos pais, do professor, do chefe ou do governo).
Sim. Eu quero um país melhor para eu e todos viverem.
Repetindo o dito já famoso “Um país desenvolvido não é onde o pobre tem carro, mas onde o rico anda da ônibus.”
Temos que parar de agir na Lei de Gérson e começar individualmente, e influenciar quem está ao nosso redor.
Sim. Você não mudará o mundo de uma hora para outra apenas mudando o que você faz. Mas você será uma pessoa melhor.

E, definitivamente, o mundo nunca mudará se todos esperarem que o outro faça certo primeiro.

março 08, 2014

Os "alienados" dos smartphones e a "culpa" pela demolição da 'boa' sociedade do passado

Um absurdo. Pessoas alienadas com os olhos fixos numa tela minúscula. Lendo, jogando, conversando ... fazendo não se sabe o quê.

Uma geração perdida, que não vê o mundo ao redor.

Uma geração de pessoas fúteis que não lêem os grandes filósofos.

Será?

Tenho pensado um pouco nisso ultimamente e, sem nenhuma pesquisa com rigor científico, cheguei à conclusão de que tudo isso é "a load of bull crap".

Sei que agora já tem um montão de pseudo-intelectuais torcendo o nariz, mas vamos fazer algumas comparações e digressões a respeito::

1 - a pessoa nem acorda e já está lá, colada na tela do seu smartphone. Nem se conversa mais na mesa do café-da-manhã.

Será que isso é alguma novidade?

Lembre-se bem do passado (e tema recorrente de propagandas de margarinas [argh!]).
O pai sentava-se à mesa e enfiava sua cara escanhoada num jornal. Ficava ele perdido nos editoriais e apenas conseguia pegar sua xícara de café porque sua esposa sempre a colocava no mesmo lugar na mesa.
Nada conversava com seus filhos, pois estava ele se preparando para seu dia de trabalho.
Quem falava com as crianças era a mãe/empregada/babá/.... (a propósito, feliz dia das mulheres - mais um bullshit de sociedades que estão nem aí para essa cidadã de segunda classe).

2 - a pessoa entra no metrô/ ônibus e já enfica o focinho no seu smartphone. Nem percebe o mundo a sua volta.

Novidade?

Lembremos que no passado muita gente trazia seu jornal para ler no trajeto. Também havia aqueles que jogavam seu passatempo preferido - sudoku, palavras-cruzadas e seus correlatos.
Além disso, que vantagem Maria leva em ficar uma hora olhando pros lados num vagão de metrô, ou ônibus, lotado? O que se vê é sempre o mesmo - pessoas já cansadas antes do dia começar. Sem falar que chega uma hora em que fica extremamente difícil achar um campo de visão em que você não tenha que dar um sorriso amarelo por estar 'encarando' o co-participante dessa aventura antropológica que é o transporte público.

Bem. Eu poderia ficar horas dando exemplinhos como os acima (ninguém mais conversa à noite - como se antes de conversava sobre algo que não sobre o capítulo da novela das oito; ninguém mais lê - como se ficar lendo Sabrina e Contigo fosse melhor que ficar no FB .......) mas não o farei pois creio que a ideia geral está descrita::

Apenas mudamos os meios, mas nossa alienação é a mesma.
Não podemos culpar o gadget por nossas escolhas. Se queremos ler Sabrina e Contigo em papel impresso ou na tela do smartphone, continuamos sem agregar nada 'nobre' a nosso cérebro.
Se preferimos jogar sudoku em um exemplar Coquetel, ou se o jogamos em um app, continuamos a jogar sudoku.
Se os pais querem conversar com os filhos, o samrtphone é tão nocivo quanto o jornal impresso ou a novela.
Se vamos dormir no trajeto até o trabalho, se vamos ouvir um mp3 ou se vamos ficar bisbilhotando a vida dos outros na rede social, estamos apenas fazendo 'nada' em meios diferentes.

Long story short::

Coisa de velho achar que os jovens hoje estão piores do que ontem (podem até estar, mas não é por culpa do smartphone).

Culpar a tecnologia pelo uso que fazemos dela é mostrar que nada entendemos de história, antropologia, sociologia e tecnologia.

E tenho dito (ou escrito). E quem quiser discordar que seja bem vindo.

setembro 11, 2013

The Illusion of Control

chance
chance is the ruler of all
we all love to think we are in control
we all love to think our decisions actually matter
newsflash! they dont matter
how many good, smart, capable people have made good choices but are not in a good situation?
how many lame, stupid, useless people have made lousy choices and are in a good situation?
the illusion of control....
we all live in "a brave new world", only with broader/ overlapping casts 
alphas ranging from alpha to gamma, but a cast nonetheless
ah! the great examples: Jobs, Gates.... 
outliers!!! statistically expected cases
no great decision would have made Jobs the Jobs we all know had he not been given to adoption
no great Gates would exist if he had been born a few years before or after
control? an illusion
chance! a fact.... a sequential never ending combination of facts
simply chaos and the butterfly effect in action
and we still pat ourselves on the back
and think so highly of our decisions
silly us
silly self centered us

agosto 17, 2013

Atendimento Pós Encontro

trim trim
trim trim

'Que porra é essa? Domingo nove da manhã, será que as testemunhas de Jeová agora tem serviço de call-center?'

"Alô!"
"Alô Sra Silvana? Bom dia, aqui quem fala é o Máiquel. Eu gostaria de estar fazendo uma pesquisa de satisfação sobre o encontro da senhora ontem à noite. Pode estar sendo agora? São apenas cinco minutinhos."
"Co-Como assim?"
"A senhora não saiu com o Sr Pedro ontem à noite?"
"Sim, saí. E daí?"
"Então, o Sr Pedro trabalha com Marketing e ele preza muito pelo pós-atendimento, satisfação do cliente e esses lequetreques todos. Coisa que ele aprendeu com o Sr Seti. Por isso ele implementou esse processo de avaliação."
"Seti? Você quer dizer 'Seth godin', o guru do marketing?"
"Nãããoooo! É o Sr Setembrino Magela, professor do Sr Pedro lá na Unioito. Vamos começar então com algumas perguntas sobre demographics:
- A senhora é branca, negra, asiática ou prefere não responder?"
"Como assim? Ele não se lembra de mim?"
"Desculpe Sra Silvana! Erro meu, utilizei indevidamente perguntas do script de outra pesquisa." - 'nota mental: avisar ao Sr Pedro que ele precisa revisar essa parte do script do pós-encontro porque isso ainda vai dar merda com as moças.' - "Vamos continuar com a pesquisa correta:
- Em uma escala de 1 a 10 dê uma nota ao item 'importância dada ao encontro', sendo '1' se ele apenas deu uma passadinha na sua casa e vocês transaram e '10' se ele pagou o jantar, teve um bom vinho, uma boa conversa e ele a levou para a casa dele"
"O senhor só pode estar de brincadeira! Me recuso a responder!"
"Tudo bem Sra Silvana. Vou colocar uma nota cinco aqui para não distorcer a média. Segunda pergunta:
- Em uma escala de 1 a 10 dê uma nota ao item 'A trepada em si', sendo '1' se foi uma rapidinha, ele virou de lado e roncou, '8' se a senhora teve orgasmos múltiplos e '10' somente deve ser atribuído caso além dos orgasmos múltiplos ele ficou acordado, fez conchinha e conversou."
"Isso é mesmo um absurdo. Só pode ser brincadeira. Não vou falar sobre isso com um estranho ao telefone!"
"Aí a senhora me fode Sra Silvana. Vai parecer que eu não faço meu trabalho direito e vou acabar sendo demitido. Vou colocar uma nota seis nesse item. Terceira e última pergunta:
- Em uma escala de 1 a 10 dê uma nota ao item 'Interesse e possibilidade de um segundo encontro', sendo '1' se ele apenas se despediu da senhora no quarto mesmo e a senhora teve que achar a porta de saída e procurar um táxi, '9' se ele a levou até a sua casa e você mora nos Jardins e escolha '10' somente se ele a levou até a sua casa e a senhora mora em Guarulhos, Taboão, Osasco, Embu ou qualquer um desses lugares longe pra cacete."
"Bem, eu moro no ABC..."
"ABC.... deixe-me ver .... ABC vale um nove e meio!" - 'até que enfim uma pergunta que ela respondeu. Mas se disse que mora no ABC deve mesmo é morar lá em Mauá!' - "Obrigado pelo seu tempo Sra Silvana. Sua opinião nos ajudará a prover um serviço melhor no futuro. Tenha um ótimo dia!"

'Eu não acredito que isso aconteceu. Deve ser brincadeira de muito mau gosto. Vou ligar a-go-ra para aquele filho da puta do Pedro'

"Alô!"
"Que porra é essa? É você de novo? Mas eu liguei para o celular do Pedro!"
"Sra Silvana? Bom dia novamente. A senhora ligou para o número certo, é que além de fazer a pesquisa para o Sr Pedro eu também trabalho como secretário dele - e convenhamos, ele não é tão pegador assim e se eu fosse depender do emprego de pesquisa de satisfação eu morreria de fome. A propósito, também sou o personal dele."
"Personal? E aquela barriga de chopp que ele tem?"
"Porra Sra Silvana, eu faço o que posso. Ou a senhora acha que se eu fosse um bom personal eu teria que fazer esses bicos pro Sr Pedro?"
"Bem. É verdade!"
"A propósito Sra Silvana, estou livre hoje à noite, não quer sair comigo? Mas já vou avisando, comigo é encontro 171: na sua casa, uma bela trepada e eu mesmo acho a porta de saída para pegar minha bike!"



junho 11, 2013

Um Ciclo Que Se Fecha

Ele ficou lá. Sentado, com os olhos marejados e um olhar cansado. Como pedira a todos os outros presentes, restava agora apenas ele naquele campo verdejante. Essa era a última coisa que ele poderia fazer por ela. Esperar e ver o último grão de terra ser despejado em sua sepultura. Não havia nenhuma ilusão em sua mente, ele sabia não haver uma vida após a morte e que ela já não mais existia. Mas ele fazia aquilo para ele mesmo. Para sua própria paz ficou ele ali sentado por horas a fio. A única coisa que passava por sua mente eram as lembranças daqueles últimos dois meses.

Estavam eles no meio do oceano Pacífico, em seu veleiro, como por muitas vezes já o haviam feito. A tempestade se aproximava, mas a eles não preocupava, pois não seria sua primeira tempestade. Fizeram todos os arranjos necessários; prenderam todos os itens soltos; baixaram e amarraram todas as velas e fecharam todas as escotilhas. A tempestade chegou como chegam todas as tempestades. Vento, chuva, raios, trovões. Mas em um piscar de olhos o que era uma tempestade havia se transformado em um furacão e tudo em seu mundo começou a ser destruído. Sua única lembrança clara se refere a seu reconhecimento, e aceitação, de que aqueles seriam seus momentos finais caso não tomasse alguma ação imediata.  Ele tomou a decisão de que precisavam sair do veleiro se quisessem sobreviver. E assim o fizeram. Vestiram seus trajes de sobrevivência, carregaram o bote salva-vidas com os kits de primeiros socorros e de sobrevivência e conseguiram sair do barco antes que esse se partisse e se encaminhasse ao fundo do oceano. Ele nunca entendeu como conseguiram sobreviver a um furacão com ventos e ondas fortes o suficiente para rachar o casco do seu veleiro. Mas eles sobreviveram.

Eles não conseguiam se lembrar como foi que caíram e se afastaram de seu bote salva-vidas. Tampouco conseguiam precisar quantas horas havia ficado a deriva na água turbulenta. A eles parecia que havia se passado, ao menos, um dia inteiro. Acabaram por chegar a uma praia em uma pequena ilha que se erguia solitária no meio do vasto oceano. Para qualquer lado que se olhava nada podia ser visto no horizonte. Sabiam que estavam vivos graças a seus trajes de sobrevivência, que os havia protegido da hipotermia e do afogamento. Ele havia machucado seu ombro esquerdo, que doía demasiadamente, e ela tinha um joelho torcido.

Após três dias vasculhando a ilha, acabaram por perceber que tinham tido sorte, pois a ilha não era dos piores locais para se estar perdido. Havia água limpa e muitas frutas conhecidas. Também puderam encontrar uma caverna que fornecia um abrigo adequado da chuva e do vento. Porém, o que lhes causava preocupação era o tempo que demoraria para serem resgatados – se o fossem – pois não haviam tido tempo para enviar nenhum sinal de emergência antes de abandonarem o veleiro. O que os tranquilizava é saber que seu filho iniciaria uma busca no dia seguinte após não receber a comunicação diária que mantinha com eles. Essa certeza permitiu que, mesmo em uma situação difícil como aquela, pudessem se manter tranquilos e até desfrutarem um pouco do tempo que tinham sozinhos. Mas para não correrem riscos desnecessários, garantiram que haveria sinais fartos de sua presença naquela ilha preparando fogueiras e grandes sinais de S.O.S. nas areias da ilha.

Mas o destino não lhes foi o mais gentil. Em uma tarde, ao voltar do riacho de onde coletavam água fresca – e que não ficava a mais de cinco minutos de distância – a encontrou caída na areia. Ele correu o mais rapidamente que pôde em direção a ela e pôde perceber que ela estava sofrendo uma reação alérgica grave. Ela ainda conseguiu olhá-lo nos olhos, sorrir e apertar sua mão antes de desmaiar e, alguns minutos depois, deixar a vida se esvair de seu corpo. Ele não podia acreditar naquilo que se passou. Ela não tinha nenhuma alergia conhecida. E ele não conseguia deixar de pensar no fato de que se estivessem em seu barco, ou em sua casa, ela ainda estaria viva. Por treze horas ele ficou sentado com ela em seus braços. Por treze horas ele chorou. Por treze horas ele praguejou e amaldiçoou o mundo. Por treze horas ele sentiu toda a sua impotência. Por treze horas ele não conseguiu pensar em nada que não fosse o buraco em seu coração. Após treze horas ele se levantou e começou a cavar uma sepultura para sua companheira.

E o destino novamente o traiu. Ao se levantar ele pôde ver um bote se aproximar da costa e os três homens a bordo se aproximarem dele. Em algum momento os homens lhe explicaram que haviam lido sobre o desaparecimento de um casal em alto mar e ao avistarem as bandeiras laranjas que tremulavam naquela praia – os trajes de sobrevivência haviam sido convertidos em bandeiras laranja que foram distribuídas por toda a praia – decidiram verificar. Mas nada disso importava. Sua primeira reação ao ver aqueles homens não foi a reação de uma pessoa normal. Ele não acenou, ele não sorriu, ele não correu em direção a seus salvadores. A única coisa que ele pôde fazer foi retornar em direção ao corpo de sua amada, toma-lo em seus braços e caminhar lentamente em direção à linha d’água. Ele nunca conseguiu explicar o que sentiu naquele momento. Mas era um sentimento mais doloroso que aquele que ele havia sentido treze horas antes. Como poderia ser possível ela morrer apenas horas antes de serem resgatados? Após 58 dias em uma ilha isolada. Tudo aquilo tinha que ser apenas um pesadelo. Mas ele, infelizmente, sabia que tudo aquilo era realidade. Uma realidade dolorosa e triste.

Ele decidiu que já era hora de deixar o cemitério e voltar para sua casa. Não havia nenhuma razão para que ele ali ficasse. Ela ali não estava. Ela não estava em lugar nenhum. Ela não mais existia.

Ao chegar a sua casa ele já havia tomado a decisão. Ele não tinha dúvidas de que possuía razões mais do que suficientes para cometer o suicídio. Afinal, ele perdera dois amores em sua vida. Há vinte anos sua esposa morrera durante o parto e ele, por muitos anos, criou seu filho sozinho até encontrar aquela que seria seu novo amor. E agora esse novo amor também partira. Mas seu filho ainda precisava de sua presença. Seu filho ainda era seu filho, a única pessoa viva que ele amava. Então sua decisão foi de que iria esperar até o dia em que seu ciclo de ‘pai e filho’ se encerrasse. Ele esperaria, não importando quanta dor tivesse que suportar, até seu filho se tornar um pai.

Seis anos, dois meses e três dias se passaram e lá estava ele, segurando seu neto em seus braços. O menino olhava para seu rosto e sorria. Sorria um sorriso que era o mais belo sorriso que ele já havia visto. Não era apenas beleza estética que ele via naquele sorriso, ele via também a beleza da liberdade, pois ele não precisaria esperar nem mais um dia para acabar com uma vida de sofrimentos.

Ao chegar em sua casa, separou dezenas de seus antidepressivos e ansiolíticos, colocou-os ao lado de sua cama e começou a redigir a carta de suicídio para seu filho ....

“Meu filho, meu único amor, me desculpe.

Sei que não é uma atitude corajosa acabar com a própria vida, mas entenda que eu já sofri o bastante e por mais tempo do que eu gostaria. Perder os amores de minha vida, sendo impotente para ajudá-las enquanto elas morriam em meus braços é muito doloroso para eu suportar.
Por duas vezes eu lutei para me recuperar e já estou muito cansado de toda a depressão, dos pesadelos, das doses mais e mais altas de medicamentos e da dor em meu coração. Estou cansado. Apenas isso. Cansado.

Você sempre foi a única razão para eu continuar vivendo. E agora sinto que eu posso partir. Você agora tem seu próprio filho. Você é um pai e não precisa mais de mim. O ciclo se encerrou e agora posso descansar. Novamente, me desculpe.

Saiba que você é a pessoa que mais amei durante toda a minha vida. Você foi a razão para eu me manter vivo. Por você eu passaria por tudo isso novamente.

Nada nesse mundo me deu mais felicidade e prazer do que ser seu pai, e por isso parto com o sentimento de que minha vida valeu a pena mesmo com toda a dor que vivi.

A única coisa que tenho certeza após todos esses anos é que eu realmente te amo. Eu sempre te amei.
Adeus filho!”

Seu filho terminou de ler a carta sem perceber o rio de lágrimas que escorria por seu rosto. Tudo que ele pôde fazer foi voltar seu olhar para cima e perguntar, “Mas pai, eu não entendo. Você está aqui e me trouxe essa carta. Por que?”


“Eu te explico meu filho. Após escrevê-la e lê-la por incontáveis vezes, apenas uma certeza eu tive. A certeza de que se tudo o que eu havia escrito fosse verdade, eu realmente te amo. E se essa é a única certeza que tenho, então não há alternativa a não ser jogar todas aquelas pílulas no lixo e me certificar que estarei aqui para amá-lo a cada segundo da minha vida, até que chegue o dia em que ela acabe naturalmente.”